- Já conversei com a Arcanja Recepcionista, a qual me 
informou que o Senhor é metido a gênio.
- Gênio é um tipo que faz acontecer coisas sem ter ideia de 
que elas vão acontecer...
- O Senhor parece-me conturbado, um tanto louco!
- Acertou na mosca. Meu desejo de vencer a morte que se 
avizinha, tem-me transtornado.
- Como médica, posso garantir-lhe que é impossível desviar 
a finalidade da morte.
- Mas num mundo que é governado à toa pode-se contar 
com coincidências.
- Devemos sempre desconfiar das coincidências.
- Curei-me de um câncer de próstata em razão de coinci-
dências.
- Um câncer de próstata não é resultado de coincidências.
- Mas a cura é. 
- A cura, qualquer cura é resultado de estudos e pesquisas e 
tratamento.
- A minha experiência de paciente ensinou-me que a cura 
do câncer de próstata é resultado direto da obstinação do 
canceroso.
- E como se manifestou esse seu estado de obstinação?
-  Pela teimosia. Sou teimoso tal um jumento chucro.
- No mal de Parkinson a máquina humana trepida e para; no 
câncer são células que não param de crescer...
- Obra de deus...
- O Senhor Deus nada tem a ver com isso. São sempre as 
circunstâncias, subproduto do livre arbítrio.
- De trás para frente: meu irmão morreu... de câncer de 
próstata.
- Sabia disso. O fato está nos nossos Santos Registros. 
- Ele era médico e pela lógica um médico que se tem dono 
da vida e da morte não devia morrer.
- Ora, disparate! Se médico é dono da vida e da morte, 
como o Senhor diz, era de se esperar que devia viver para 
sempre!
- A espera é feita mais de fantasia do que de realidade.
- Não enrole, quais foram as “circunstâncias”?
- A fundamental circunstância: à beira da morte meu irmão 
disse-me: você será o próximo.
- O Senhor era mais velho do que ele?
- Ele era mais velho do que eu dois anos.
- Que idade ele tinha quando morreu?
- Setenta e poucos.

- Quantos anos o Senhor tem agora?
- Mais de noventa!
- Havia outros irmãos?
- Mais novo do que eu, dois homens e uma mulher. Os 
homens já morreram, nenhum de câncer de próstata.
- O câncer prostático não é hereditário, a medicina 
constata apenas que numa família onde um membro foi 
portador de câncer de próstata, outros têm a probabilidade 
de sê-lo também.
-Mas na Natureza os iguais tendem a se agrupar e a expelir 
os diferentes...
- Que o Senhor quer dizer com isso?
- Em geral são os pequenos detalhes que agem sobre a vida 
da gente.
- Que pequenos detalhes?
- Quando meu irmão médico, já moribundo, predisse meu 
câncer de próstata, só a partir daí foi que eu soube que 
havia próstata!
- Sim.
- Fui consulartar-me com um urologista. O toque indicou 
tumoração suspeita. Aí ele pediu biópsia.
- A biópsia confirmou a existência da neoplasia maligna?
- Não; deu negativa. O PSA é que registrou um íncide acima 
do normal.
- Identificações táteis, visuais e indiciantes são pouco 
confiáveis.
- No ano seguinte fiz novo toque retal e nova biópsia; o 
índice do PSA aumentara, mas a biópsia continuava a dar 
negativa.
- Quando é que o Senhor conheceu que era portador de 
neoplasia prostática?
- Três anos depois da morte de meu irmão médico. Foi 
necessária  raspagem transuretal da próstata para a 
biópsia registrar o câncer.
- É a isso que o Senhor chama de “circunstâncias”?
- A potencialidade para a vida ou para morte está presente, 
com igual intensidade, em todas as pessoas; as pessoas é 
que não atentam para os pequenos detalhes.
- E o Senhor acha que sua obstinação, ou teimosia como o 
senhor denomina, é um pequeno detalhe?
- O hábito é a usina da mediocridade; mas obstinação é 
formação superior.
- O Senhor se considera superior?
- Obstinado.  Sem coragem não se pode fazer nada. 

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